Saudades Mortas
Me atormentava a ver intranqüila, rangendo os dentes freneticamente como se estivesse por morrer. Deixei-me ver entre a porta entreaberta, um risco de sangue no chão, quase negro, deslizando como uma serpente por entre os pés pálidos da estátua no canto da sala. Tua garganta ainda tem as marcas suaves dos meus dedos, um odor silencioso de sombras cruas e distorcidas permeia toda a sala. Meu sussurro invade teus ouvidos. Teus olhos fixos. Foi por você que meus pés caminharam até aqui. Não obtive resposta. Teus cabelos negros tingiam e abraçavam o tapete da sala. Corri brevemente por entre meus pensamentos. Te estendi a mão, ela deslizou por entre meus dedos. Tua boca exalava fétidos suspiros, eu aspirava tudo, ansiosamente, teu sexo gélido, tua face muda e lisa. Me envolvi sordidamente entre teus braços e apertei teu ventre junto ao meu. Te possuí calmamente, sutilmente adentrei teu universo perdido, tua alma em desuso. Me atormentava novamente teu olhar vazio, tua incerteza maldita, tua fragilidade indócil, teu mal-estar mágico. Apenas um beijo fútil, ardendo meus lábios, e neles depositei todo o asco e toda a delicadeza de uma vida. Ela acordou sonolenta e decidiu viver:
Me acende um cigarro?
Fumou desgraçadamente meia dúzia deles. Lavou a alma na pia da cozinha, olhou no espelho e se viu calma. Encarou fixamente os seus próprio olhos e sentiu o silêncio.
Chorou como de costume, soluçou e gritou. Queimou o rosto com a ponta do cigarro e engoliu a dor suavemente.
Estou sedenta, disse em meio aos soluços...
Se ajoelhou e ergueu as mãos para o céu e uma gota de medo molhou seu rosto imóvel.
Sentou-se na cama, fechou os olhos.
Pensou por um breve momento em tudo e comoveu-se por um instante. Nada poderia mudar o futuro.
Sons de mil vozes se alternavam e todas murmuravam sagrados mandamentos que se perdiam no ar...
Ela andou dois passos... O revólver na mão. O cérebro em frangalhos...
O sangue manchando o tempo... Ela apenas me olhou nos olhos...
Ela chorava e sussurrava, cantarolando alguns versos de uma canção desconhecida e se despedia de si mesma, entornando seus sonhos garganta adentro.
Passei minhas mãos pelos seus cabelos e sorri provisoriamente... Deitei em seu colo e olhei para
o céu.
Escrito nas nuvens estava um capítulo inteiro das minhas saudades.
O microconto acima foi escrito por meu amigo Luciano Pires, poeta, escritor, serial killer, entre outros...
Mais sobre seus escritos, acesse os blogs http://smallblood.blogspot.com/ http://prozacfiles.blogspot.com/
07/12/2009
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